A Pesquisa de Satisfação e Qualidade Percebida divulgada pela Anatel em março de 2026, com dados referentes ao ano de 2025, confirmou algo que o setor já vinha percebendo na prática: os provedores regionais estão no topo da preferência dos consumidores brasileiros de banda larga. A mineira BrSuper alcançou a primeira posição no ranking entre todas as operadoras analisadas, seguida pela Dtel, sediada em Vitória de Santo Antão (PE).
Não é detalhe. É a confirmação de uma virada de mercado.
Os números que mudam a leitura do setor
A pesquisa entrevistou 58 mil consumidores de serviços de telecomunicações por telefone, dos quais 19 mil responderam sobre banda larga, com margem de erro de 5%. O cenário que se desenha é claro:
- Provedores regionais respondem por 64,1% do mercado de banda larga fixa no Brasil — um fenômeno único no mundo.
- A Vivo, uma das maiores operadoras nacionais, caiu duas posições no ranking, com sua nota recuando de 8,84 em 2024 para 7,78 em 2025.
- A Claro, maior provedora de banda larga do país, teve melhora na nota, mas ainda assim foi superada por diversos ISPs regionais.
- A satisfação está diretamente ligada à qualidade da rede: menos falhas, menos necessidade de contato com a operadora, mais estabilidade percebida.
O que explica essa liderança
A explicação não é única, mas converge para um ponto: proximidade com o cliente. Provedores regionais conhecem o território onde atuam, conseguem responder mais rápido a chamados, oferecem atendimento humano e investem em infraestrutura própria de fibra óptica. Hoje, aproximadamente 73% dos acessos fixos no Brasil já utilizam tecnologia FTTH (Fiber to the Home), segundo levantamentos da Anatel e da Teleco — e os ISPs regionais foram protagonistas dessa migração.
Além disso, o leilão da faixa de 700 MHz realizado pela Anatel em maio de 2026 mostrou que provedores regionais como Brisanet, Unifique, IEZ! Telecom e Amazônia Serviços Digitais estão expandindo agressivamente sua atuação para áreas de menor cobertura, levando 4G e 5G a mais de 864 localidades. O 5G, aliás, já atinge 63,61% de cobertura no Brasil, superando a meta da Anatel para 2027.
Mas o cenário também traz desafios
Se 2025 trouxe boas notícias, 2026 chega com exigências mais duras. A Anatel iniciou um endurecimento regulatório que vai reorganizar o setor:
- Fim da dispensa automática de outorga. A regra que permitia a provedores com até 5 mil assinantes operar sem autorização formal está acabando.
- Exigência de Governança Digital e Compliance. A agência espera maturidade operacional comprovada de todos os ISPs.
- Risco de “limpeza” do mercado. Em setembro de 2025, mais de 7 mil provedores ainda não haviam solicitado a outorga obrigatória. Estima-se que o Brasil tenha pelo menos 22 mil provedores em operação.
A tradução prática: só os provedores estruturados, com governança em dia e diferenciação clara de produto, vão prosperar nos próximos anos.
O que isso significa para quem é dono de um ISP
A liderança em satisfação é uma vitória, mas não é um cheque em branco. Ela representa, ao mesmo tempo, uma vantagem competitiva e uma responsabilidade. Para sustentar essa posição, o provedor regional precisa atuar em três frentes:
- Conformidade regulatória. Outorga em dia, processos documentados e governança digital deixaram de ser opcionais.
- Diferenciação por experiência. A conectividade pura virou commodity. Quem agrega valor — com SVAs, atendimento próximo e ofertas combinadas — sai na frente.
- Profissionalização da gestão. O mercado caminha para uma consolidação intensa, com forte movimento de M&A. Estar preparado financeira e operacionalmente é o que define quem cresce, quem é adquirido em boa avaliação e quem fica para trás.
Os dados da Anatel sobre 2025 são uma boa notícia para os provedores regionais — mas não devem ser lidos como ponto de chegada. Eles são a confirmação de que o modelo regional, baseado em proximidade, qualidade técnica e atendimento, está vencendo a guerra pela preferência do consumidor brasileiro. O desafio agora é manter essa posição em um ambiente regulatório mais exigente e em um mercado em consolidação acelerada.
Para isso, profissionalizar a operação, investir em diferenciação de produto e se cercar de parceiros especializados deixou de ser estratégia: virou condição de sobrevivência.
