ABRINT 2026: eficiência tributária, IA e sustentabilidade pautam o futuro dos provedores

O Abrint Global Congress (AGC) 2026, realizado entre 5 e 8 de maio no Distrito Anhembi, em São Paulo, consolidou-se mais uma vez como o maior evento de provedores de internet do mundo. Foram 44 mil participantes, mais de 250 empresas expositoras, representantes de 40 países e R$ 200 milhões em negócios fechados em quatro dias de programação intensa.

Mas o que ficou para os provedores regionais foi algo maior do que números: a confirmação de que o setor entra em uma fase em que eficiência tributária, uso ético da inteligência artificial, sustentabilidade e novas tecnologias deixam de ser pauta de futuro e passam a ser decisão de negócio do dia a dia.

A ISP Solution acompanhou os principais debates e preparou este resumo com os temas que mais vão impactar a sua operação nos próximos meses.

1. Eficiência tributária e reforma fiscal: o tema que pode redesenhar a margem do seu provedor

Se há uma agenda que pode mudar a estrutura financeira dos ISPs no Brasil em 2026, é a tributária. E ela esteve no centro do AGC. Os debates giraram em torno de três pontos críticos:

🔹 A reforma tributária e a transição para IBS/CBS Os painéis discutiram como a substituição do PIS, Cofins, ICMS e ISS pelos novos tributos (CBS no nível federal e IBS no nível estadual/municipal) vai impactar o setor de telecomunicações. Para o provedor regional, a leitura é simples: muda o regime, muda a apuração, mudam as obrigações acessórias e — principalmente — muda a forma de calcular a margem real do contrato. Quem não fizer o exercício de simulação agora corre o risco de descobrir o impacto só na conta do mês.

🔹 O futuro da Norma 4 A Norma 4 da Anatel, que regula benefícios para Prestadoras de Pequeno Porte (PPP), virou um dos temas mais sensíveis do evento. O presidente da Anatel, Carlos Baigorri, defendeu que a norma seja revisada antes da plena implementação da reforma tributária, o que mobilizou todo o ecossistema de provedores. A Abrint tem se manifestado preocupada com possível insegurança regulatória — mudar a regra no meio da transição tributária pode comprometer a previsibilidade dos investimentos.

🔹 FUST, encargos setoriais e a agenda institucional A Agenda Institucional 2026 da Abrint, apresentada no Congresso Nacional ainda em janeiro e reforçada durante o AGC, listou crédito, FUST, espectro e tributação como prioridades legislativas. A mensagem é clara: o setor precisa de um ambiente fiscal mais simples e previsível para continuar investindo em rede.

O que isso significa na prática? Para o provedor regional, eficiência tributária deixou de ser tema de departamento contábil e passou a ser decisão estratégica de CEO. Revisar regime de apuração, recuperar créditos, planejar contratos com cláusulas de gross-up para o novo modelo e estruturar a área fiscal com tecnologia são movimentos que separam quem vai capturar margem dos que vão simplesmente repassar imposto ao cliente.

2. Sustentabilidade e ESG: AGC 2026 é Carbono Neutro pelo terceiro ano consecutivo

Outro destaque marcante do evento foi a renovação do selo Carbono Neutro, conquistado pela Abrint em parceria com a Planton. Pelo terceiro ano seguido, todas as emissões geradas pela operação do congresso — do consumo energético dos estandes ao deslocamento dos visitantes foram medidas e compensadas com créditos de carbono de alta integridade.

A escolha vai além do simbolismo. Em um setor cada vez mais escrutinado por investidores, contratantes corporativos e pelo poder público em critérios de ESG (Environmental, Social and Governance), o recado é direto: provedores que querem disputar contratos B2B robustos, acessar crédito mais barato ou se preparar para uma eventual janela de M&A precisam começar a estruturar políticas próprias de sustentabilidade.

A pauta da sustentabilidade da infraestrutura também apareceu em vários painéis técnicos: eficiência energética de redes, descarte adequado de equipamentos, uso responsável de espectro e impacto ambiental dos data centers que sustentam a nova economia da IA.

3. Inteligência Artificial: a hora da ética, da regulação e do uso responsável

A IA foi tratada no AGC 2026 como eixo transversal de toda a programação, mas o tom mudou em relação a edições anteriores. O debate evoluiu da euforia do “o que dá para fazer com IA” para um questionamento mais maduro: como fazer isso de forma ética, regulada e responsável.

Os principais recortes discutidos:

  • Ética no uso de dados de clientes — provedores armazenam um volume enorme de informação sobre comportamento de tráfego, hábitos de consumo e perfil das famílias atendidas. Usar isso para prever churn ou personalizar ofertas exige cuidado com LGPD, transparência e consentimento.
  • Regulação da IA — entidades internacionais e autoridades nacionais reforçaram que o Brasil precisa avançar em um marco legal que proteja consumidores sem inviabilizar inovação.
  • Impacto social — desde combate à misoginia online (debatido no Abrint Mulher) até a preocupação com automação de empregos no setor.
  • IA aplicada à operação — monitoramento preditivo de redes (com soluções como FibrIA, do Inatel), atendimento ao cliente, automação de billing, observabilidade de experiência e inteligência de mercado para acompanhar a concorrência.
  • IA e infraestrutura — energia, conectividade óptica e capacidade de data centers como pré-requisitos para sustentar a nova demanda da economia de IA.

A leitura para o provedor regional é que IA precisa entrar pela operação primeiro — para reduzir churn, aumentar eficiência e melhorar NPS — e depois pelo produto, com responsabilidade ética e em conformidade com a regulação que está sendo desenhada.

4. Agenda Institucional e Regulação: o setor articulado em Brasília

O AGC 2026 reforçou que provedores regionais não são mais coadjuvantes do debate regulatório. A Abrint apresentou seu novo conselho, listou prioridades legislativas claras e levou ao palco o ministro das Comunicações, Frederico Siqueira, o presidente da Anatel, Carlos Baigorri, e o deputado Juscelino Filho, presidente da Frente Parlamentar Mista de Telecomunicações.

As prioridades em curso:

  • Compartilhamento de postes — com a nova resolução conjunta Anatel/Aneel que estabeleceu preço de referência temporário de R$ 5,84 por ponto de fixação, criação da figura do “agente posteiro independente” e enfrentamento da judicialização.
  • Defesa da faixa de 6 GHz para Wi-Fi não licenciado — com demonstração ao vivo de Wi-Fi 7 no último dia do evento.
  • Rejeição firme ao fair share (rebatizado como FEC-GEM) — a Abrint mantém posicionamento contrário a qualquer cobrança sobre o ambiente digital.
  • Cibersegurança como infraestrutura crítica — debate sobre marco legal para reconhecer formalmente data centers e provedores como infraestrutura essencial do país.
  • Inclusão digital e soberania — pauta com participação de autoridades do Brasil, Costa Rica e Uruguai.

5. Tecnologias exponenciais: o que vem por aí para o ISP

A área técnica do AGC 2026 trouxe lançamentos e debates sobre as tecnologias que vão definir os próximos anos do setor:

  • Wi-Fi 7 na faixa de 6 GHz — qualidade de experiência superior em residências, empresas, escolas e hospitais.
  • FWA (Fixed Wireless Access) com 4G/5G — soluções como o lançamento da Awire (WDC Networks) ampliam atendimento em regiões remotas, agronegócio, mineração e ecoturismo.
  • Redes ópticas de alta capacidade — pré-requisito para sustentar aplicações intensivas de IA.
  • Observabilidade e monitoramento preditivo — plataformas que dão ao provedor visibilidade da experiência entregue ao cliente final.
  • Cibersegurança como serviço — Smart DNS, anti-DDoS e proteção contra ransomware em modelos multi-tenant e white label, abrindo caminho para revenda como SVA.
  • Plataformas de inteligência de mercado — soluções que mostram em tempo real onde a concorrência está ganhando ou perdendo clientes.

6. Eficiência de negócios e novos modelos de receita

Por fim, mas não menos importante: o AGC 2026 confirmou que o crescimento orgânico ficou mais difícil. Por isso, diversificar receita virou condição de sobrevivência. As frentes mais discutidas foram:

  • Operadoras móveis virtuais (MVNO).
  • Soluções B2B (cibersegurança, conectividade gerenciada, soluções para agronegócio).
  • Serviços digitais e plataformas de streaming, educação e saúde.
  • Cibersegurança como SVA para clientes residenciais e empresariais.
  • Bundles que combinam fibra + serviços de valor agregado para aumentar ARPU e reduzir churn.

Para Breno Vale, presidente da Abrint, a equação é direta: o provedor regional precisa hoje combinar governança, eficiência, qualidade de serviço e diversificação de receitas.

O que levar para a sua operação

O AGC 2026 deixou um diagnóstico que cabe em cinco linhas:

  1. Eficiência tributária virou pauta de CEO — simule, recupere créditos, prepare contratos.
  2. ESG e sustentabilidade abrem portas para crédito, contratos B2B e novos investidores.
  3. IA entra primeiro na operação, com ética e em conformidade com a regulação que vem.
  4. Tecnologias exponenciais (Wi-Fi 7, FWA, observabilidade) são diferencial competitivo na ponta.
  5. Diversificação de receita via SVA deixou de ser opcional.

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